As imagens desta exposição são um chamado à reflexão, ao sonho e ao pacifismo.
Olhar para o céu num momento duro como este, em que ao menos 8 guerras estão em curso, é instintivo não apenas para aqueles que buscam leveza na contemplação das nuvens abstratas, mas também necessário àqueles que estão atentos a um chamado, que sentem algum tipo de sentimento guardião em relação ao conteúdo declarado pelas Nações Unidas em 1948, acerca dos Direitos Universais dos Seres Humanos. Em 10 de dezembro daquele ano, os poderes constituídos ao redor do mundo concordavam em zelar por valores básicos inerentes a cada vida humana existente na Terra. O documento defendia além da paz, valores como dignidade, liberdade, igualdade e justiça. Ao mesmo tempo, a declaração também especificava o direito à vida, à educação, à saúde, ao lazer, ao trabalho e à habitação. Temas como o descanso, a privacidade e até mesmo o direito autoral aparecem no texto. Trata-se de um clamor anti-violência, assim como esta exposição.
No mundo hiperinformado de hoje, é impossível esconder até mesmo de crianças que há indivíduos genocidas dispostos ao extermínio. Em nome do poder, estes falsos líderes agem com intenção de eliminar rivais, pessoas com outros posicionamentos que vão contra seus interesses. Assim, estes facínoras regressistas atentam contra a obra de Deus - ancestral máximo que nos criou para evoluirmos no caminho da convivência, ainda que por ventura tortuoso. Pode ser que as imagens enganem, mas lá detrás dos céus, Deus não lança pregos ou mísseis, não manda torturar, não manda matar e, sobretudo, não pede holocaustos - uma invenção do falso sacerdócio de espíritos ditadores e fascistas. Quando acordamos para este jogo de manipulações, finalmente, é como olhar para replicações desastrosas da nossa imagem pela nossa própria tecnologia; ou como assistir a uma autômata aberração que busca compensar sua letargia multiplicando status de horror. O vírus da maldade já podia ter sumido há milênios junto daqueles poucos ascendentes que ignoravam a harmonia imunológica geral dos corpos, mas parece que ele aderiu definitivamente ao metal polarizado.
Quem tem medo da paz? A atenção que daremos às respostas da juventude será determinante para o nosso futuro. Junte a isso a maior revolução da nossa atualidade: a velocidade dos fluxos de dados. Se o século XX foi triunfal para a mecânica, o século XXI será apenas o início da pesquisa quântica. Vale lembrar: neste dezembro de 2023, a União Europeia aprovou uma regulamentação bastante restritiva para o uso da inteligência artificial, o que significa aplicar um freio nessa onipresença técnica que alcançou níveis de conexões jamais esperados. Até então, a máquina de aprendizado (machine learning) tinha passe-livre para adquirir todo tipo de conhecimento disponível no mundo. Quando atingiu uma eficiência própria, seus poderes foram testados dentro de uma proposta neoliberal que contraria cinicamente o ideal de liberdade já convencionado em 1948. O artigo 12 passou a ser afrontado, por exemplo, quando as máquinas não mantiveram o respeito em relação à proteção da privacidade individual e familiar. Numa postura arbitrária e negligente, os desenvolvedores de IA sequer se preocuparam em colocar aqueles princípios em revisão junto à sociedade. Foi pior: Os testes de poder da IA foram investidos principalmente contra a população de países em desenvolvimento, onde o esclarecimento sobre as novas tecnologias sempre chegou atrasado.
A novíssima ordem mundial se incrementou então com o mind power, usando algoritmos de influência para atingir além do desejo, a atitude do ser humano, de modos a direcioná-lo para um fim ideológico monetizável. Por mais que os demagogos dessa tecnologia digam que isto ocorre porque a máquina de aprendizado espelha a sociedade, devemos prontamente cobrar o olhar crítico: a pobreza – por mais que os nobres tentem relativizá-la – embaraça o sonho num caos aflito de poder. Sem um alarme contra os níveis de desigualdade (financeira e intelectual), a humanidade restará perdida na violência. Não importa a classe social, estamos chegando todos ao ponto de não-retorno, onde as máquinas infectadas pelo vírus da influência atitudinal atingirão um nível destrutivo ainda imensurável e, pelo visto, não houve pandemia que segurasse essa Guerra Fria 2.0.
Quem tem medo da paz? Volto a fazer esta pergunta agora ao Google Bard, uma máquina de IA que é capaz de inferir 3 esboços – nenhum deles contém autoconsciência ou autocrítica sobre o seu papel para a manutenção da paz. Enquanto isso, o Youtube Kids testa suas aberrações no meu filho inocente sem aviso digno e o comércio de armas e munição se multiplica nas redes. Não faz diferença. Máquina não tem ética, ela cumpre ordens. Mas se for de paz, será de paz. Pois vamos pedir paz não só dos homens, mas também das suas criações, suas máquinas, suas artes. Esta regulamentação recém aprovada pela União Europeia é o primeiro sinal de preocupação com essa vida ciborgue da atualidade, vida que veio melhorando até aqui devido ao acúmulo historiográfico, à revisão crítica e à edificação da convivialidade, fatos que fizeram o ancestral obcecado por poder ir abandonando progressivamente o seu sentimento de ódio.
No princípio só havia incerteza. O verbo trouxe luz. Convergindo e divergindo, houve paz e guerra. A arte que aqui encontramos dialoga pela paz.
O título da primeira individual do multiartista Michel Schettert versa sobre a incerteza do mundo. Junto à curadora e artista Lúcia Gomes, o autor escolheu 10 imagens que transmitem beleza e harmonia num momento de dor. A primeira imagem é um prego caindo do céu.
R:         Michel, como surgiu a ideia da exposição?
M:       Durante o confinamento da pandemia de Covid-19, comecei a fotografar o céu, observando o movimento das nuvens. No tempo lento em que elas se deslocavam, permiti-me experimentar duplas exposições. Eu queria preencher o azul do céu com o branco das nuvens. Às vezes, passava apenas uma cumulus e eu queria multiplicá-la no quadro. Um dia, quando avistei uma nuvem em forma de ciclone, subindo, busquei o mesmo movimento cíclico no gesto. Girei o braço que segurava o corpo da câmera e também a mão que ia apertar o disparador. Assim apareceu a dança como elemento do gesto fotográfico, uma relação que eu vinha investigando desde as minhas pesquisas em videodança.
R:         Como você se descreve?
M:       Eu sou brasileiro, nascido e criado em Belém. Saí daqui com 14 anos e fui para o Rio de Janeiro estudar. Fiz Comunicação Social e tive um período de bolsa na França, em Estudos Cinematográficos. Voltei muito interessado por dança e fiz meu mestrado na UFRJ sobre a ligação do cinema com a dança. Eu estava pesquisando maneiras de dançar com a câmera na mão e editar com o olhar de um coreógrafo. É uma busca pelo cineasta-coreógrafo, que ainda não parou. Mas eu já fui músico, iluminador, fotógrafo, radialista, cinegrafista, editor e agora estou escrevendo bastante.
R:         Por que voltou a morar em Belém?
M:       A pandemia foi um período que me chamou pelas raízes. Eu tive que olhar para o meu lugar de nascimento, o meu clima, o meu ambiente originais. Eu não voltei de surpresa. Eu comecei a passar cada vez mais meses aqui. Primeiro eram apenas férias de fim de ano com a minha mãe. Depois, em 2019, arrumei um job que me apresentou à cultura do miriti. Daí por diante eu vinha ao Pará com frequência e comecei a perceber as oportunidades criativas. Foi quando eu decidi voltar de vez, em 2021. Tive um filho, o Kael, que está com dois anos.
R:         Você poderia explicar um pouco sobre o título da exposição?
M:       A civilização vive um período pós-pandemia muito turbulento, com a maldade de líderes políticos fascistas se propagando através de atos de terror e genocídio. Ao menos 8 guerras estão em curso neste momento. A Declaração dos Direitos Humanos, aprovada em 1948 pelas Nações Unidas após a derrota nazista na II Guerra Mundial, está sofrendo sérios ataques de um movimento orquestrado pela ultradireita conservadora. A Galeria de Arte Direitos Humanos vai ser justamente o local onde cabe a minha expressão pela paz e pela harmonia. Como estudioso da mídia, eu sou muito crítico às novidades tecnológicas e aos modos como elas são implantadas na sociedade. Eu sei que o que vende notícia é briga, violência, intriga, perturbação, o tal circo dos horrores. As imagens de guerra estão à palma da mão. Quando eu li essa frase de Albert Einstein, Deus não joga dados, eu compreendi inicialmente de duas formas: a primeira é que não existe aleatoriedade para Deus. Ele é um harmonizador. Ele não improvisa nem faz escolhas jogando dados, como fazia Mallarmé. Ele simplesmente apazigua o excesso de caos. Ou seja, ele não especula. Trata-se da segunda compreensão, que leva para o fato de que a Guerra Fria 2.0, um dos maiores dilemas do mundo pós-contemporâneo, na minha opinião, é um conflito global que flui através de dados digitais, binários, os quais pulsam por redes criptografadas ora mais ou menos aparentes, segundo forças especulativas. Acontece que o nível de especulação já foi transgredido. Já espocaram diversas guerras e o que pedimos é um cessar-fogo. Pedimos um olhar que se volte novamente para o céu, símbolo de esperança de paz e harmonia para o nosso planeta. O “r” no meio da palavra “dados”, é apenas uma atualização que eu enxerguei para juntar essas ideias, um lembrete para reforçar que, se Deus é harmonia, evidentemente Ele não lança dardos, mísseis ou foguetes. É o próprio homem que antecipa a sua morte, com medo de um antagonista forjado na especulação. Daí a imagem que fecha a exposição ser um clique de esperança, a mão de uma criança que aponta para um futuro ainda porvir.
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